25 de febrero de 2011

'que lhe seja concedido amar e nunca possuir o ser que ama!'


Num certo dia, separado do seu grupo de fiéis companheiros, o moço gritara: 'Quem está aqui?' 'Está aqui!', respondera Eco. Ele fica estupefacto. Dirigindo o olhar para todos os lados, berra em altos brados: 'Vem!' E ela chama quem a chama. Olhando para trás, e de novo ninguém vindo, 'Porque foges de mim?', grita. E quantas palavras diz, tantas recebe de volta. Ele insiste, e, enganado pela ilusão da voz que responde, diz: 'Anda para aqui, vamos!', e Eco, que jamais haveria de ecoar qualquer outro som com mais prazer, 'Vamos!' retorquiu. Para apoiar em pessoa as próprias palavras, saiu do bosque e avançou com o fito de lançar os braços ao ansiado pescoço. Ele, porém, foge. E, ao fugir, exclama: 'Tira as tuas mãos de cima de mim! Antes morrer do que entregar-me a ti!'. Nada consegue ela retorquir a não ser 'entregar-me a ti!'. Repudiada, esconde-se nos bosques, e, com vergonha, oculta o rosto na folhagem. E desde então vive em grutas solitárias. Todavia, o amor permanece e cresce com a dor da repulsa. Os cuidados das insónias emagrecem o lastimável corpo, a magreza engelha-lhe a pele, e toda a humidade do corpo evola-se para os ares. Somente restam a voz e os ossos: a voz ficou; os ossos, dizem, tomaram o aspecto de pedra.
[Desde aí oculta-se em bosques e em monte algum é vista, e, porém, todos a ouvem: é tão-só som o que vive nela.]