Há meia dúzia de pessoas que eu conheço da rua, da faculdade, ou de outro sítio qualquer mas com quem nunca falei. Não são bem meia dúzia de pessoas, são menos. São pessoas que me chamam a atenção ou porque são bonitas (talvez não 'bonitas' para todas as pessoas mas pelo menos para mim), porque estão sempre nos mesmos sítios onde estou ('Oh, hoje era engraçado ir à Gulbenkian' e lá está a pessoa, 'Oh, hoje era engraçado ir comprar meias à Feira do Relógio' e lá está a pessoa, 'Oh, hoje era engraçado ir beber uma bica ao café X' e lá está a pessoa - não sei se estão a ver o padrão) ou porque correspondem à minha ideia romantizada de pessoa ideal (por quem nunca me apaixono).
Quando se tratam de pessoas do nosso bairro ou de alunos da nossa faculdade é fácil descobrir "amigos" em comum no Facebook e ir parar aos seus perfis. Aí atiro-me de cabeça a todas as informações que possa encontrar e assumo que serei uma stalker nos próximos trinta minutos. Como é óbvio, as probabilidades de me desiludir são imensas. Na maior parte dos casos os perfis são privados e tenho apenas acesso ao nome e à fotografia de perfil que estão a usar no momento. Aí descubro nomes como xAC!DxB00TSx (o nickname verdadeiro era dez vezes "melhor") ou fotografias tiradas contra o espelho de casas de banho. As meninas (quando têm maminhas médias ou grandes) têm invariavelmente fotografias onde aparecem com decotes gigantes, comentários de homens rebarbados aos quais elas respondem com enorme humildade ou dando a entender que nem se aperceberam que se espirrarem têm os mamilos de fora.
Mas nas raras ocasiões em que é possível ter acesso a todas as coisas que são publicadas pela pessoa é que qualquer réstia de ilusão se desfaz. Descobri que tenho olho para pessoas que dão erros ortográficos, que gostam de grunge e metal, que têm opiniões bastante negativas sobre o Bloco de Esquerda (há uma pessoa que acha que qualquer proposta do Bloco é uma tentativa de "aparecer" e só deviam ter lugar no Parlamento os partidos que "já estiveram no governo") e que têm tendência a ser transfóbicas.
Percebo agora porque é que olho para metade das pessoas com quem me envolvi no passado e não consigo perceber o que se passava na minha cabeça. Não sei ler pessoas e tenho tendência a projectar os meus ideais nos outros. Obrigada, Facebook.
2 comentários:
Tem calma contigo. O Facebook não é o Farol
Sabes que as coisas que imaginamos nem sempre são verdade e não penses negativamente à certa daquelas pessoas por quem te interessas, vais ver que no fundo, nem interessam os erros ortográficos ou os partidos políticos, mas sim, a maneira como cada um vive o que lhe é dado ;)
Vera
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